"Minha meditação me queima, Senhor! Mas me deixai falar para me desafogar."
Jorge de Lima
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domingo, 15 de agosto de 2010

A ruivinha do trem

Em dias de solidão a gente começa a reparar mais no mundo ao nosso redor.
Tinha tudo para ser um mais-um-dia. Como de costume, havia me enfiado no meio da mutidão, em busca de sobrevivência ou, pelo menos, tentando chegar ao trabalho no horário. O trem estava cheio e o meu olhar vagava de lado a lado, pois nessas horas vem uma inquietude indescritível, que terminou com o aparecimento de uma bela figura, uma ruivinha pequena e elegante. Não sei de onde veio, mas quando me dei conta ela estava em pé do outro lado do vagão. Sua figura contrastava com o mundo ao seu redor: ela, tão delicada e pequena no meio de um mundo hostil e agressivo. O rosto sereno diferenciava-se do silêncio conformista que reina na cara das pessoas nessa situação.
Enquanto esperava o trem partir, colocou os fones de ouvido e começou a se deliciar com algum tipo de música. A boca pequena movia-se com afinco, acompanhando o ritmo e a letra, provavelmente rápidos, da música. Como ela era linda! Não conseguia tirar os olhos dela. Tentei desviar o olhar, pois não creio ser de muita educação ficar observando as pessoas dessa forma, mas foi em vão: logo eu não resistia e voltava a pregar os olhos no seus cabelos de fogo.
O trem já havia partido. Numa curva a luz do Sol repousou no rosto dela, o que lhe deu uma nova graça, pois realçava o branco da sua pele e o leve corado nas bochechas. Incomodada um pouco pela luz, ela fechou os olhos, mantendo a cabeça um pouco inclinada para a direita numa expressão de serenidade, causada talvez pela música que ouvia.
Num das paradas de estação, desviei a atenção para o empurra-empurra travado logo atrás de mim. O trem retomou o movimento. A ruivinha estava agora de lado em relação a mim. Ela havia mudado de posição para que pudesse arrumar o cabelo, enquanto segurava com a mão esquerda um espelho de bolso. Depois de guardar, ela, distraída, ficou brincando com um dos caracóis do seu cabelo. E como fazia isso com charme!
Você vai me perguntar: Será que alguma vez ela olhou na minha direção. E a resposta é sim. E foi uma só vez. O olhar dela me paralisou momentaneamente. Mas como disse foi só um momento. Logo seus olhos se perderam na paisagem pela janela.
A viagem estava terminando. O trem parou e eu desembarquei. Notei logo que ela desembarcou na mesma estação, por outra porta. Não deixou de ser engraçado vê-la saltitando alegremente enquanto corria em direção a um moço sentado numa das cadeiras da estação. Ele se levantou e a segurou com força no seus braços. Não eram namorados, pois não se beijaram, nem saíram de mãos dadas.
Não demorou muito para perder de vista no meio da multidão da Cidade Grande a minha paixonite do trem: a minha doce ruivinha, que talvez nunca mais terei o prazer de ver novamente. Mas... como é bom estar vivo!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sambódromo de pobre ou O homem da bolota

Nesse Carnaval decidi passar como todos os anos: em casa, sem viajar. Em primeiro lugar, porque não sou tão adepto assim desta data (visto que me sinto mal em multidões); em segundo porque viajar nessa data é uma loucura! O Brasil inteiro querendo fazer a mesma coisa não dá! Mas aconteceu de sábado ter saído com alguns amigos para um bom e velho boliche.
Era noite já, e como sempre, eu voltava de trem para casa. O vagão estava um tanto vazio, mas mesmo assim preferi viajar em pé encostado à porta, olhando a paisagem que passava. Não havia muita gente pelas ruas (e olha que nem eram 21 horas!), mas numa avenida iluminada duas arquibancadas de mais ou menos 50 metros de comprimento cada, formando um corredor, revelou um sambódromo improvisado! Nem sei a que horas o "desfile" iria começar, mas uma meia dúzia de gatos pingados (como diria meu pai) estava aguardando nas arquibancadas. Achei tudo aquilo engraçado e fiquei ansioso para que a arquibancada passasse logo para que eu pudesse ver se já havia alguma escola posicionada. Ao final da passarela, um grupo de pessoas com fantasias se preparava para entrar. Em cima de um carro alegórico bem sem graça, por sinal, a destaque, quase nua (nem penas para cobri-la) tentava se posicionar na plataforma mais alta (que não devia ter nem 2 metros). Nem vou criticar o desfile, afinal nem todas as cidades tem sorte de serem tão ricas a ponto de receberem tanto incentivo para a "preservação da cultura"... O que se pode dizer? Pobre é pobre, mas diverte!
Logo depois, ouvi uma voz arrastada: "Quem puder ajudar..." Virei para trás e vi um homem vindo na minha direção. Com a camiseta levantada, mostrava o motivo de sua desgraça: um enorme tumor avermelhado (ou algo parecido) na lateral da sua barriga. A bolota era realmente grotesca, mas felizmente ela estava cuidadosamente protegida por um plástico. O homem caminhava com passos arrastados. Uma mulher sentada estava com olhos fechados e com cara de agonia. O espetáculo era terrível demais para ela. De repente, o homem parou e se virou na direção da mulher agoniada: o trem estava parado na estação e alguém na plataforma que estava passando gritou para ele que "os homi entrou". Imediatamente ele abaixou a camiseta e foi para o outro vagão. Por baixo da camiseta, a bolota parecia uma pochete mal colocada. A mulher abriu os olhos e continuou sua vida, feliz por tudo ter passado. O que ela não lembrou é que o homem ia continuar com a bolota e, ele sim, teria que vê-la de novo. "Mas pode ser mentira! O homem poderia ter colocado um pedaço de carne na barriga e prendido com aquele plástico", dirá alguém, mais cético. Pode até ser, quem sabe. É como naquela história de Pedrinho e o lobo. Só que às vezes pagamos também pelas mentiras dos outros. Vale a pena olhar as pessoas pelo papel que ocupam na sociedade ou vale mais a pena olhar as pessoas como indivíduos?

sábado, 23 de janeiro de 2010

Aventura na selva de pedra e metal

Quinta-feira. A noite nem prometia tanto: ficaria no trabalho por mais duas horas para fazer hora extra. Já havia me resignado quanto a isso, quando a coisa configurou-se de modo diferente: não seria mais necessário ficar! Feliz e contente, desço a rua Tuiuti pensando em quantos níveis conseguiria subir no Mafia Wars naquela mesma noite, ao chegar em casa. Estava tão feliz que até mesmo o "Embarque Feliz", quer dizer, "Embarque Melhor" da CPTM pareceu-me ameno. Acabavam de chegar às 19 horas e eu já estava "aportando" em Guaianases. Desço do trem e observo o trem que vai para Mogi parado e cheio de gente a quase sair passageiros pela janela. "Esperemos o próximo! Afinal, pra que pressa?" (Não sei por que, mas sempre na sua segunda pessoa do plural.) Fico parado na plataforma à espera do próximo trem. Após alguns minutos, ali vinha ele, o caco velho. Nenhum outro trem vindo da Luz havia chegado ainda, de modo que pude embarcar sem problemas. Nem quis sentar e fiquei de pé mesmo ouvir minha musiquinha. Logo, logo, chegou mais um trem, e um bando de gente entrou correndo; alguns minutos depois, mais um trem; porém dessa vez, não havia mais lugar para uma pessoa minimamente sã entrar. Nem preciso dizer que uns brutamontes entraram à força, num fenomenal esforço para chegar alguns minutinhos mais cedo em casa... O trem sai. Sucesso! Iria chegar em casa bem cedo e poderia navegar no Facebook à vontade! O trem prosseguia seu caminho, mas antes mesmo de chegar à primeira estação o trem para. Alguns minutos de silêncio. Uma chuva fina começava a cair lá fora. Mesmo com os fones eu conseguia perceber a impaciência de alguns. Beija-santos. Suspiros. Rostos cansados. Súbito ouviu-se aquela rumor que faz o trem antes de sair; o trem, move-se... mas na direção contrária! Grito geral de insatisfação. "Maquinista filho-da-puta" e outras coisas semelhantes eu consegui ouvir mesmo com a música. TUM-TUM (tiro os fones para ouvir)... DEVIDO A AVARIA, ESTE TREM RETORNARA A ESTAÇAO GUAIANASES. Outro protesto coletivo. As reações foram diversas, teve quem ficasse batendo repetidas vezes na porta, outros resmungavam e teve até quem não demonstrasse reação alguma (uma japonesinha sentada a minha frente que olhava de um lado para outra, mas com um olhar nulo). Ouvi de uma mulher a seguinte frase, para mim incompreensível: "Por que não deixaram a gente sair ali mesmo", ou seja, no meio do nada onde o trem tinha parado. Quando o nosso trem cruzou com outro que ia sem problemas para Mogi, fiquei pensando nos homens que tinham quase se matado para entrar naquele trem.
Bem, voltamos a Guaianases e para nossa surpresa a estação até que não estava cheia. Descemos com a chuva já apertada. Ninguém sabia para onde ir. Informações desencontradas, alguns diziam que ia aparecer outro trem na plataforma central, outros foram a plataforma 4, pois juravam que seria ali o próximo trem, por fim, sobraram aqueles que continuaram no trem que voltou achando que seria aquele mesmo. No fim das contas estava todo mundo errado: TUM-TUM, PROXIMO TREM COM DESTINO ESTAÇAO ESTUDANTES PLATAFORMA 1. Mais um urro geral. Houve uma correria e alguns estúpidos acharam que seria aquele trem do meio do mesmo. Quem se tocou e foi esperto chegou lá sem problemas. Eu atravessei também, mas vi que não seria possível ir naquele trem. Depois de um tempo, chegou mais um trem vindo da estação da Luz.
TUM-TUM, PROXIMO TREM COM DESTINO ESTAÇAO ESTUDANTES PLATAFORMA 1. PROXIMO TREM COM DESTINO ESTAÇAO ESTUDANTES PLATAFORMA 1. PROXIMO TREM COM DESTINO ESTAÇAO ESTUDANTES PLATAFORMA 1. Fiquei parado ali olhando ao redor. Havia dois amigos parados do meu lado. Acho que eles estavam na mesma situação que eu, sem saber o que fazer. Quando o próximo caco velho de Estudantes chegou, ouvi o seguinte aviso: TUM-TUM, PROXIMO TREM ESTACAO ESTUDANTES PLATAFORMAS 2 E 3. Para encurtar a história: para meu espanto, acabei voltando no mesmo trem que havia nos trazido de volta no meio do caminho, que partiu logo após o trem da plataforma 1. A viagem foi calma, mas cheguei em casa com fome e com as pernas cansadas.
O que fica de lição para nós é que pobre só se ferra mesmo!
Bom, não joguei Mafia Wars no fim das contas, mas o lado bom é que perto de Suzano reparei numa linda moça sentada num dos bancos com o olhar meio perdido. Nossos olhares se encontraram e ela sorriu pra mim!
Quem dera a vida fosse aquele sorriso: doce e amena...