Esta é uma continuação do relato contido no post anterior. Se você ainda não conferiu, é melhor começar por ele...
Depois de fechar todas as malas e constatar que estava tudo em ordem, eu e minhas primas decidimos que seria bom se pudéssemos comer alguma coisa. Como não havia muito dinheiro e como não queríamos deixar as malas sozinhas no albergue, ficou decidido que eu ficaria ali na sala de tv com as malas, enquanto as meninas saíam para procurar um supermercado ou qualquer outro lugar onde pudessem comprar alguma coisa para comer.
As duas saíram e eu fiquei ali jogado no sofá. Estava sozinho, mas logo apareceu companhia: primeiro um moço com um touquinha azul ridícula que evidentemente se sentou ali para esperar alguém e depois um homem, que mais parecia um armário, se sentou ali para tomar uma cerveja sem o agito do bar, no andar de cima. No entanto, apesar da presença dos dois estava tudo em paz e, por isso, fiquei ali de boa sem ser incomodado por ninguém.
Logo minhas companheiras de viagem voltaram abarrotadas de comida. Levantei-me e fui com elas até umas mesinhas que ficavam ao lado da cozinha. Hora da comilança!
Mas algo me incomodava:
"Não é melhor a gente trazer as malas para cá, junto de nós?", perguntei.
"Não! Daqui dá para vê-las. Não é preciso.", respondeu minha prima.
Levando isso em conta, começamos a comer. Logo apareceu mais uma rapaz, amigo do touquinha-azul, que havia feito a mesma coisa que as meninas e trouxe comida para os dois. Eles também se sentaram a outra mesa.
Foi aí que começou a parte interessante da história. De repente a porta que dava para as escadas se abre e entra um moço de mais ou menos uns 25 anos, cambaleando tanto que nem conseguia ficar em pé. Ele estava completamente bêbado. Veio caminhando na nossa direção, e eu pensei que ele fosse querer falar com nós, mas ele passou direto e entrou no banheiro. Minha prima mais nova disse que ele fez um sinal para ela, que ela achou que fosse aquele que significa "Estou de olho em você!". Ela ficou com um pouco de medo, mas enquanto falávamos disse, o cara saiu do banheiro, parou ao nosso lado e disse com a voz mais molenga do universo e gesticulando do mesmo jeito que havia feito para minha prima antes de entrar no banheiro: "Descuuuuulpe, I haaave....." (as reticências representam a parte que não fomos capazes de entender). Ficamos olhando para ele com vontade de rir, mas tínhamos medo de ele irritar-se. Diante do nosso silêncio ele parou de falar e começou a fazer um gesto com a cabeça, dizendo: "No? No?". Então ele sacudiu os ombros e foi cambaleando até a sala de tv. Minha prima mais nova, como não podia deixar de ser, começou a rir com gosto do moço. Minha outra prima disse a ela para moderar o tom, pois o cara podia ficar bravo. Nesse meio tempo, o bebum conseguiu chegar lá e sentou-se ao lado do homem-armário, tentando puxar assunto com ele, que evidentemente não queria bater papo com um bêbado; por isso ele se levantou e sentou-se em outro sofá.
A porta se abriu de novo. Dessa vez entrou o coleguinha do bêbado. Ele segurava uma taça de vinho e, como o outro, mal conseguia parar em pé! Os dois fizeram sons naquela língua estranha de bêbado quando se reconheceram e o segundo bêbado também foi à sala de tv. Minha prima mais nova, sempre aos risos: "Ah lá! Ele batizou o chão e o sofá com vinho!". De fato, o cara mal conseguia segurar a taça e derrubou quase todo o seu conteúdo. Depois de colocar o "vaso sagrado" na mesa, ele voltou até a escada e voltou carregando o fio de um computador, como se fosse um pêndulo. Nesse momento, ninguém na sala fazia muita questão de esconder que estava dando risada dos dois. A seguir foi a vez de ele trazer um computador. Os dois colegas sentaram lado a lado no sofá e ficaram um pouco em silêncio. Continuamos a comer, agora conversando sobre outras coisas.
De repente minha prima mais nova: "Eles estão no maior love!". Quando me virei, o segundo bêbado usava o computador, e o primeiro repousava a cabeça no ombro do amigo num gesto de cooperação e amizade entre bêbados! Não satisfeitos com o estado em que se encontravam, o segundo decidiu acender um baseado, ali no meio da sala de tv mesmo. Aquele cheiro horrível de maconha invadiu a sala, mas logo passou.
Depois de um tempo, o segundo fechou o computador, e os dois se levantaram e saíram abraçados, pois pensavam assim que conseguiriam andar. Eles pararam perto do touquinha-azul e seu amigo e tentaram conversar com ele, mas o moço, como a gente, só ficou dando um sorriso amarelo. Então os dois, mais para lá do que para cá, saíram da sala. Todos começaram a dar risada dos dois, até o homem-armário, que, de volta ao seu lugar, olhava para nós rindo à beça.
Me pergunto se aqueles dois conseguem sobreviver sozinhos...
domingo, 12 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Despejados em Buenos Aires
Pobre quando viaja é assim: se mete em um monte de roubadas (não que eu reclame! haha). Na semana passada viajei com as minhas primas para a cidade mais brasileira fora do Brasil: a capital de los hermanos. Passamos um excelente fim de semana. Na verdade, era um daqueles raros momentos em que se melhorar um pouco estraga. Ficamos num albergue muito bom na Avenida de Mayo, que liga a Casa Rosada ao Congresso Nacional. O albergue era maravilhoso e ficamos muito bem hospedados por exatos 2 dias e três quartos.
Era domingo já. Hora de voltar para casa. Carregados com sacolas, voltamos para o albergue, cansados e com vontade de tomar um banho. Subimos as escadas com esforço e chegamos ao quarto, mas ao abrir a porta tivemos uma baita surpresa: em vez dos dois beliches que haviam sido postos ali para nós, havia uma cama de casal: havíamos sido despejados! Procuramos pelo quarto, mas as nossas malas não estavam por lá. Deixamos as coisas em cim da cama e fomos à recepção. Lá embaixo quem estava no turno era um argentino baixinho e com cara de espertalhão. Quando perguntei com ele o que havia acontecido, ele ficou surpreso e exclamou: "Ah, então são vocês!". E depois explicou que não tínhamos que ter feito o check-out até as duas da tarde porque o quarto seria ocupado por outra pessoa! Eu e minhas primas nos olhamos entre nós e eu perguntei onde diabos estavam as nossas malas. O funcionário do albergue apontou para um escritório ali atrás e disse para que nós o acompanhássemos. Fomos até lá e ele apontou para um canto. Estavam lá. As duas malas e a minha mochila e mais uma sacola enorme com as coisas que tínhamos deixados fora das malas estavam jogadas e não fazíamos a mínima ideia se tudo estava lá dentro.
Perguntei no mais puro portunhol como iríamos fazer para arrumar as nossas coisas e o cara respondeu que podíamos ir na sala de tv no subsolo, pois ali era um lugar bem calmo.
Decidimos fazer como ele disse e por isso pegamos o elevador para o subsolo. Na sala de tv, arrumamos um canto e começamos a arrumar nossas coisas em público! Foi tão engraçado! Ainda bem que pelo menos nada havia sumido, exceto uma garrafa de águas e alguns bolinhos que estavam no quarto.
Nossa preocupação era colocar nas malas as coisas que tínhamos comprado, pois achamos que não haveria espaço. A ordem portanto foi socar tudo na mala! No final acabou mesmo dando tudo certo. Só uma das malas foi difícil de fechar, por isso, tive de me sentar nela para que o zíper fechasse. Nada de muito preocupante, portanto...
Pena que a história ainda não acabou...
Continua...
Era domingo já. Hora de voltar para casa. Carregados com sacolas, voltamos para o albergue, cansados e com vontade de tomar um banho. Subimos as escadas com esforço e chegamos ao quarto, mas ao abrir a porta tivemos uma baita surpresa: em vez dos dois beliches que haviam sido postos ali para nós, havia uma cama de casal: havíamos sido despejados! Procuramos pelo quarto, mas as nossas malas não estavam por lá. Deixamos as coisas em cim da cama e fomos à recepção. Lá embaixo quem estava no turno era um argentino baixinho e com cara de espertalhão. Quando perguntei com ele o que havia acontecido, ele ficou surpreso e exclamou: "Ah, então são vocês!". E depois explicou que não tínhamos que ter feito o check-out até as duas da tarde porque o quarto seria ocupado por outra pessoa! Eu e minhas primas nos olhamos entre nós e eu perguntei onde diabos estavam as nossas malas. O funcionário do albergue apontou para um escritório ali atrás e disse para que nós o acompanhássemos. Fomos até lá e ele apontou para um canto. Estavam lá. As duas malas e a minha mochila e mais uma sacola enorme com as coisas que tínhamos deixados fora das malas estavam jogadas e não fazíamos a mínima ideia se tudo estava lá dentro.
Perguntei no mais puro portunhol como iríamos fazer para arrumar as nossas coisas e o cara respondeu que podíamos ir na sala de tv no subsolo, pois ali era um lugar bem calmo.
Decidimos fazer como ele disse e por isso pegamos o elevador para o subsolo. Na sala de tv, arrumamos um canto e começamos a arrumar nossas coisas em público! Foi tão engraçado! Ainda bem que pelo menos nada havia sumido, exceto uma garrafa de águas e alguns bolinhos que estavam no quarto.
Nossa preocupação era colocar nas malas as coisas que tínhamos comprado, pois achamos que não haveria espaço. A ordem portanto foi socar tudo na mala! No final acabou mesmo dando tudo certo. Só uma das malas foi difícil de fechar, por isso, tive de me sentar nela para que o zíper fechasse. Nada de muito preocupante, portanto...
Pena que a história ainda não acabou...
Continua...
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
A ruivinha do trem
Em dias de solidão a gente começa a reparar mais no mundo ao nosso redor.
Tinha tudo para ser um mais-um-dia. Como de costume, havia me enfiado no meio da mutidão, em busca de sobrevivência ou, pelo menos, tentando chegar ao trabalho no horário. O trem estava cheio e o meu olhar vagava de lado a lado, pois nessas horas vem uma inquietude indescritível, que terminou com o aparecimento de uma bela figura, uma ruivinha pequena e elegante. Não sei de onde veio, mas quando me dei conta ela estava em pé do outro lado do vagão. Sua figura contrastava com o mundo ao seu redor: ela, tão delicada e pequena no meio de um mundo hostil e agressivo. O rosto sereno diferenciava-se do silêncio conformista que reina na cara das pessoas nessa situação.
Enquanto esperava o trem partir, colocou os fones de ouvido e começou a se deliciar com algum tipo de música. A boca pequena movia-se com afinco, acompanhando o ritmo e a letra, provavelmente rápidos, da música. Como ela era linda! Não conseguia tirar os olhos dela. Tentei desviar o olhar, pois não creio ser de muita educação ficar observando as pessoas dessa forma, mas foi em vão: logo eu não resistia e voltava a pregar os olhos no seus cabelos de fogo.
O trem já havia partido. Numa curva a luz do Sol repousou no rosto dela, o que lhe deu uma nova graça, pois realçava o branco da sua pele e o leve corado nas bochechas. Incomodada um pouco pela luz, ela fechou os olhos, mantendo a cabeça um pouco inclinada para a direita numa expressão de serenidade, causada talvez pela música que ouvia.
Num das paradas de estação, desviei a atenção para o empurra-empurra travado logo atrás de mim. O trem retomou o movimento. A ruivinha estava agora de lado em relação a mim. Ela havia mudado de posição para que pudesse arrumar o cabelo, enquanto segurava com a mão esquerda um espelho de bolso. Depois de guardar, ela, distraída, ficou brincando com um dos caracóis do seu cabelo. E como fazia isso com charme!
Você vai me perguntar: Será que alguma vez ela olhou na minha direção. E a resposta é sim. E foi uma só vez. O olhar dela me paralisou momentaneamente. Mas como disse foi só um momento. Logo seus olhos se perderam na paisagem pela janela.
A viagem estava terminando. O trem parou e eu desembarquei. Notei logo que ela desembarcou na mesma estação, por outra porta. Não deixou de ser engraçado vê-la saltitando alegremente enquanto corria em direção a um moço sentado numa das cadeiras da estação. Ele se levantou e a segurou com força no seus braços. Não eram namorados, pois não se beijaram, nem saíram de mãos dadas.
Não demorou muito para perder de vista no meio da multidão da Cidade Grande a minha paixonite do trem: a minha doce ruivinha, que talvez nunca mais terei o prazer de ver novamente. Mas... como é bom estar vivo!
Tinha tudo para ser um mais-um-dia. Como de costume, havia me enfiado no meio da mutidão, em busca de sobrevivência ou, pelo menos, tentando chegar ao trabalho no horário. O trem estava cheio e o meu olhar vagava de lado a lado, pois nessas horas vem uma inquietude indescritível, que terminou com o aparecimento de uma bela figura, uma ruivinha pequena e elegante. Não sei de onde veio, mas quando me dei conta ela estava em pé do outro lado do vagão. Sua figura contrastava com o mundo ao seu redor: ela, tão delicada e pequena no meio de um mundo hostil e agressivo. O rosto sereno diferenciava-se do silêncio conformista que reina na cara das pessoas nessa situação.
Enquanto esperava o trem partir, colocou os fones de ouvido e começou a se deliciar com algum tipo de música. A boca pequena movia-se com afinco, acompanhando o ritmo e a letra, provavelmente rápidos, da música. Como ela era linda! Não conseguia tirar os olhos dela. Tentei desviar o olhar, pois não creio ser de muita educação ficar observando as pessoas dessa forma, mas foi em vão: logo eu não resistia e voltava a pregar os olhos no seus cabelos de fogo.
O trem já havia partido. Numa curva a luz do Sol repousou no rosto dela, o que lhe deu uma nova graça, pois realçava o branco da sua pele e o leve corado nas bochechas. Incomodada um pouco pela luz, ela fechou os olhos, mantendo a cabeça um pouco inclinada para a direita numa expressão de serenidade, causada talvez pela música que ouvia.
Num das paradas de estação, desviei a atenção para o empurra-empurra travado logo atrás de mim. O trem retomou o movimento. A ruivinha estava agora de lado em relação a mim. Ela havia mudado de posição para que pudesse arrumar o cabelo, enquanto segurava com a mão esquerda um espelho de bolso. Depois de guardar, ela, distraída, ficou brincando com um dos caracóis do seu cabelo. E como fazia isso com charme!
Você vai me perguntar: Será que alguma vez ela olhou na minha direção. E a resposta é sim. E foi uma só vez. O olhar dela me paralisou momentaneamente. Mas como disse foi só um momento. Logo seus olhos se perderam na paisagem pela janela.
A viagem estava terminando. O trem parou e eu desembarquei. Notei logo que ela desembarcou na mesma estação, por outra porta. Não deixou de ser engraçado vê-la saltitando alegremente enquanto corria em direção a um moço sentado numa das cadeiras da estação. Ele se levantou e a segurou com força no seus braços. Não eram namorados, pois não se beijaram, nem saíram de mãos dadas.
Não demorou muito para perder de vista no meio da multidão da Cidade Grande a minha paixonite do trem: a minha doce ruivinha, que talvez nunca mais terei o prazer de ver novamente. Mas... como é bom estar vivo!
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Comentário sobre Ana Karênina
Por favor, não leia este post se você não leu e pretende ler Ana Karênina.
Neste momento leio o epílogo de Ana Karênina, de Leon Tolstói, livro que tem me ocupado nos últimos meses. Digo nos últimos meses porque a obra tem me ocupado por muito tempo, a leitura é densa e muitas vezes custa a avançar. A desconstrução da protagonista ao longo do livro é tão intensa que custa a acreditar que a mesma dama que consegue demover a cunhada Dolly da ideia de abandonar o marido que a havia traído com a preceptora dos filhos do casal usando argumentos convicentes e a mulher que, no ápice do ciúme e do desespero, atira-se sob a roda do trem sejam a mesma pessoa. Longe do julgamento de certo e errado, o que parece estar em jogo na obra é a necessidade de encontrar o prazer, acima dos "deveres sociais". A saída de Ana foi romper com a família entregando-se ao seu amante Vronski. Isso, porém, não a torna feliz, antes é motivo para mais angústia ainda, pois a mulher sabe que o amante agora era o seu único elo com a sociedade. Sem ele, não há esperanças para ela. O que a leva a concluir que a história da humanidade é apenas a história de pessoas que se odeiam mutuamente. O amor, já próximo à loucura, torna-se ódio cego; por isso, a morte de Ana soa para ela como uma vingança. Porém é na iminência da morte que as coisas tornam-se evidentes para ela: há sim prazer verdadeiro, sem culpa.
Livro excelente!
Observação: não poderia deixar de comentar isso: no ano passado voltava da faculdade tarde da noite. Já era quase meia-noite e a última coisa que esperávamos foi o tranco que interrompeu a viagem. As luzes apagaram-se e todos ficaram sem saber o que estava acontecendo. Depois de uma longa espera vimos um guarda andando ao lado do trem com uma lanterna. De repente ele parou ao lado da janela onde eu estava e gritou, apontando a lanterna para baixo: "Ele está aqui!". Vieram outras pessoas e olharam o cadáver do homem que havia se atirado, tal como Ana, embaixo do trem, dando cabo a sua vida. Depois de retirado o cadáver (não tive coragem de olhar), o trem prosseguiu a viagem. Tive, porém, tempo de ver o tênis do homem jogado no chão, próximo ao trilho. Voltei para casa impressionado, como vocês podem imaginar. No dia seguinte, comentei o fato com uma colega de trabalho. Ela ouviu com atenção e de repente exclamou: "Nossa! Igualzinho a Ana Karênina!". Bom, como vocês podem ver, eu comecei o livro já sabendo o final. Mesmo assim valeu percorrer todas as 750 páginas e encontrar a "verdade" por mim mesmo.
Que Deus tenha piedade daquele homem!
Neste momento leio o epílogo de Ana Karênina, de Leon Tolstói, livro que tem me ocupado nos últimos meses. Digo nos últimos meses porque a obra tem me ocupado por muito tempo, a leitura é densa e muitas vezes custa a avançar. A desconstrução da protagonista ao longo do livro é tão intensa que custa a acreditar que a mesma dama que consegue demover a cunhada Dolly da ideia de abandonar o marido que a havia traído com a preceptora dos filhos do casal usando argumentos convicentes e a mulher que, no ápice do ciúme e do desespero, atira-se sob a roda do trem sejam a mesma pessoa. Longe do julgamento de certo e errado, o que parece estar em jogo na obra é a necessidade de encontrar o prazer, acima dos "deveres sociais". A saída de Ana foi romper com a família entregando-se ao seu amante Vronski. Isso, porém, não a torna feliz, antes é motivo para mais angústia ainda, pois a mulher sabe que o amante agora era o seu único elo com a sociedade. Sem ele, não há esperanças para ela. O que a leva a concluir que a história da humanidade é apenas a história de pessoas que se odeiam mutuamente. O amor, já próximo à loucura, torna-se ódio cego; por isso, a morte de Ana soa para ela como uma vingança. Porém é na iminência da morte que as coisas tornam-se evidentes para ela: há sim prazer verdadeiro, sem culpa.
Livro excelente!
Observação: não poderia deixar de comentar isso: no ano passado voltava da faculdade tarde da noite. Já era quase meia-noite e a última coisa que esperávamos foi o tranco que interrompeu a viagem. As luzes apagaram-se e todos ficaram sem saber o que estava acontecendo. Depois de uma longa espera vimos um guarda andando ao lado do trem com uma lanterna. De repente ele parou ao lado da janela onde eu estava e gritou, apontando a lanterna para baixo: "Ele está aqui!". Vieram outras pessoas e olharam o cadáver do homem que havia se atirado, tal como Ana, embaixo do trem, dando cabo a sua vida. Depois de retirado o cadáver (não tive coragem de olhar), o trem prosseguiu a viagem. Tive, porém, tempo de ver o tênis do homem jogado no chão, próximo ao trilho. Voltei para casa impressionado, como vocês podem imaginar. No dia seguinte, comentei o fato com uma colega de trabalho. Ela ouviu com atenção e de repente exclamou: "Nossa! Igualzinho a Ana Karênina!". Bom, como vocês podem ver, eu comecei o livro já sabendo o final. Mesmo assim valeu percorrer todas as 750 páginas e encontrar a "verdade" por mim mesmo.
Que Deus tenha piedade daquele homem!
domingo, 30 de maio de 2010
Così è la vita
Nunca lhe perguntaram o que sentia; nunca lhe perguntaram o que pensava; no entanto, surpreenderam-se ao vê-lo tomar medidas tão extremas.
Nem mesmo ele sabia por que o estava fazendo, mas ali não sobrava espaço para arrependimentos, pelo menos não naquele momento.
O momento da ação é assim: uma libertação. Mas vale a pena ser livre assim?
Tudo pode, mas nem tudo lhe convém...
E não compreenderam, nem quiseram compreender.
Para quê, afinal de contas?
O salário irá cair pontualmente no quinto dia útil deste mês...
Nem mesmo ele sabia por que o estava fazendo, mas ali não sobrava espaço para arrependimentos, pelo menos não naquele momento.
O momento da ação é assim: uma libertação. Mas vale a pena ser livre assim?
Tudo pode, mas nem tudo lhe convém...
E não compreenderam, nem quiseram compreender.
Para quê, afinal de contas?
O salário irá cair pontualmente no quinto dia útil deste mês...
sábado, 29 de maio de 2010
O chifre do touro
Recentemente numa daquelas touradas idiotas (desculpem, não consigo encontrar outra palavra para esse evento tão inútil como esse), o touro atingiu o toureiro no queixo e o chifre atravessou totalmente sua pele, saindo pela boca, e o mais impressionante disso é que o fotógrafo conseguiu captar o exato momento em que o chifre podia ser visto brotando da boca do pobre homem.
A imagem me impressionou tanto que ficou gravada no meu cérebro por vários dias e todas as vezes que eu pensava no ataque, era como se eu mesmo tivesse sido atingido: em um determinado momento eu até mesmo consegui imaginar a dor que aquele homem sentiu e, angustiado, colocava a mão na garganta como que para me proteger daquela dor aguda e penetrante...
Nos dias seguintes, toda vez que alguém falava em touro, chifre ou qualquer coisa que lembrasse isso, vinha a imagem do touro e do homem, indefeso diante da fúria assassina do bovino, na minha cabeça, meus olhos se perdiam no vazio e eu tentava sacudir a ideia para bem longe, mas era inútil.
Mas o que fica é: para que serve esse tipo de espetáculo? Por que maltratam os animais?
Para aqueles que ainda não viram, aqui vai o link. Veja (ou não)!
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u738925.shtml
A imagem me impressionou tanto que ficou gravada no meu cérebro por vários dias e todas as vezes que eu pensava no ataque, era como se eu mesmo tivesse sido atingido: em um determinado momento eu até mesmo consegui imaginar a dor que aquele homem sentiu e, angustiado, colocava a mão na garganta como que para me proteger daquela dor aguda e penetrante...
Nos dias seguintes, toda vez que alguém falava em touro, chifre ou qualquer coisa que lembrasse isso, vinha a imagem do touro e do homem, indefeso diante da fúria assassina do bovino, na minha cabeça, meus olhos se perdiam no vazio e eu tentava sacudir a ideia para bem longe, mas era inútil.
Mas o que fica é: para que serve esse tipo de espetáculo? Por que maltratam os animais?
Para aqueles que ainda não viram, aqui vai o link. Veja (ou não)!
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u738925.shtml
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